A fala precisa da escuta para virar diálogo

A fala precisa da escuta para virar diálogo

Suzel Figueiredo

Diálogo é movimento de vai e vem. Como uma gangorra. Ora você fala, ora escuta. E assim segue, ideias de um, ideias de outro e a gente vai repensando o pensamento. Parece simples, como brincadeira de criança. Mas não é.

A reflexão do título é de Djamila Ribeiro, filósofa, escritora e ativista do feminismo negro. Escutei num programa de televisão, anotei num pedaço de papel e guardei na carteira. Vez por outra a encontrava ali, entre comprovantes de cartão de crédito, cartões de visita e alguns documentos.

Hoje a carteira caiu e no chão ficou um papelzinho, mal dobrado, bem insignificante. Quando abri estava lá a frase de Djamila e eu, que vivo da escuta, da pesquisa, das informações que os entrevistados nos fornecem, achei que era um sinal.

Falamos tanto em diálogo, mas, de fato, o que a maioria prefere é falar. E enquanto o outro fala, já estamos engatilhando qual será a nossa próxima intervenção inteligente. E assim, a fala do outro não nos atinge, não permeia, não influencia.

Empresas apostam na comunicação da liderança, em cursos de comunicação, técnicas de apresentação, mas é raro a gente ver empresas ensinando aos líderes a ouvir seus times, ao pessoal de sustentabilidade a ouvir a comunidade, ao pessoal do suplly chain ouvir os fornecedores.

Ouvir dá trabalho, pressupõe abrir mão de ideias preconcebidas, de nossas certezas e coloca em risco nossa autoestima. E se eu estiver errado? E se meu cliente não gosta disso? E se minha equipe não entende o que eu digo? Perguntas difíceis.

Entre nós, comunicadores, não temos dúvida da importância da fala. Mas precisamos dar ênfase à escuta porque nossas melhores descobertas estão no outro. E assim como a gente aprende a falar, também pode aprender a ouvir. Eu acredito, de verdade.

Aproveito para dividir uma frase de Rubem Alves, no seu texto Escutatória, “nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade.” Se você não conhece o texto, vale a pena.

This Post Has One Comment

  1. ELAINE SEGUEZZI

    Adorei o texto e sua profundidade simples.

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